Em 1976 o governo brasileiro proibiu a importação de veículos, e a proibição durou 14 anos. Em 2025 as fábricas do país produziram cerca de 1,98 milhão de motos, o maior volume em 15 anos, segundo a Abraciclo, associação que reúne os fabricantes. No meio desse caminho existem meio século de decisões de fábrica, modelos que viraram padrão e uma mudança grande no jeito de usar a moto.
Este texto percorre a evolução da moto brasileira década por década, com as marcas, os modelos e as mudanças de projeto que mais pesaram. Quem prefere começar pelo lado de colecionador pode ir direto ao guia de motos antigas brasileiras, e quem quer a visão de fora do país encontra os modelos mundiais em motos antigas mais importantes da história.
Anos 1970: a proibição de importar e a CG 125
A Honda vendia motos importadas no Brasil desde outubro de 1971. Com a proibição de importar veículos em 1976, a empresa antecipou a fábrica de Manaus, e em novembro daquele ano começou a produzir a CG 125. O modelo ganhou o apelido de “Bolinha” e virou a base da linha de moto mais vendida do país, que segundo a Autodata passou de 15 milhões de unidades fabricadas em Manaus até 2025.
Segundo o histórico publicado pela imprensa especializada, a Yamaha foi na mesma direção antes disso: em outubro de 1974 inaugurou em Guarulhos, na Grande São Paulo, a primeira fábrica da marca fora do Japão, e lançou a RD 50. Nos dois casos a lógica era a mesma: produzir no país motos simples, de manutenção barata, para quem usava a moto como meio de transporte.
Anos 1980: Manaus, motos maiores e marcas que sumiram
Com o mercado fechado, os anos 1980 viram fábricas instaladas no país apostarem em motos de maior cilindrada. A Yamaha inaugurou sua segunda fábrica, em Manaus, em 25 de outubro de 1985, e lançou ali a RD 350 de segunda geração, com motor de dois tempos refrigerado a água, 347 cc e cerca de 55 cv. Foi vendida até 1993 e virou lenda urbana com o apelido de “Viúva Negra”.
Também nessa época houve tentativas nacionais fora do padrão. A Amazonas Motos Especiais fez em Manaus, de 1978 a 1988, motos com motor Volkswagen de quatro cilindros opostos, e a Agrale, de tratores e caminhões, vendeu motos de trilha de 1984 até o fim da década. Nenhuma durou, e as histórias delas estão no texto sobre motos antigas brasileiras.
Anos 1990: reabertura do mercado e a Biz
A proibição de importar terminou depois de 14 anos, em 1990, e marcas estrangeiras voltaram a chegar ao Brasil. A Honda lançou a Titan em 1994, inicialmente com motor de 125 cc, e em 1998 apresentou a Biz, que mudou o perfil do comprador.
A Biz foi desenvolvida totalmente no Brasil, a partir do motor e do câmbio da C100 Dream. Trouxe aro 17 na frente e aro 14 atrás, uma combinação que ajudou na estabilidade em ruas de asfalto ruim, e foi a única da categoria com espaço sob o banco para guardar o capacete. A linha Biz passou de 6 milhões de unidades produzidas no país e é a segunda mais vendida da Honda, atrás só da CG 160.
Anos 2000: injeção eletrônica e a primeira moto flex
Em 2004 a Honda voltou a oferecer o motor de 125 cc, agora na versão de entrada Fan, que virou uma das motos mais vendidas do país. A CG ganhou injeção eletrônica em 2009, e foi nesse mesmo ano que a Honda lançou a CG 150 Titan Mix, apresentada como a primeira moto flex do mundo. Ela roda com gasolina, etanol ou mistura dos dois, e a tecnologia foi desenvolvida no Japão com participação de engenheiros brasileiros.
O lançamento aconteceu em março de 2009, a um preço inicial de R$ 6.340 na época. Foi uma resposta direta ao que já tinha acontecido nos carros: o brasileiro estava acostumado a escolher o combustível na bomba, e a moto passou a oferecer a mesma liberdade.
De 2010 até hoje: CG 160 e recordes de produção
A nona geração da CG chegou com motor de 160 cc, apresentada em 2015 como linha 2016, com projeto novo e visual mais esportivo. Em 2018 a Honda encerrou a CG 125, e a linha passou a ter só motor de 160 cc, nas versões Start, Fan, Titan e Cargo, esta última voltada ao trabalho.
Os números cresceram. Em 2024 foram produzidas 1.748.317 motos, alta de 11,1% e melhor resultado em 14 anos, segundo a Abraciclo. Em 2025 a produção chegou a 1,98 milhão (alta de 13,3%), as vendas foram de 2,19 milhões de unidades emplacadas, recorde, e as exportações somaram 43.117 motos. Para 2026 a entidade projeta 2,07 milhões de unidades produzidas.
O que mudou no desenho e na mecânica
O desenho da moto brasileira de massa mudou menos por estética e mais por uso. A “Bolinha” de 1976 tinha farol redondo, tanque estreito e motor de 125 cc. A Biz de 1998 abriu espaço sob o banco e baixou a altura de assento. A CG 160 tem visual mais esportivo, e a linha CG é, segundo a Fenabrave, o veículo mais vendido do país.
Na mecânica, a troca do carburador pela injeção eletrônica em 2009 deu mais economia e partida mais fácil, e o flex abriu a escolha do combustível. As motos de dois tempos, que fizeram fama nos anos 1980, saíram de linha ao longo dos anos, e o motivo mais citado são as regras de emissão. O motor de quatro tempos virou padrão.
Motos grandes, marcas estrangeiras e exportação
A moto de entrada concentra o mercado, mas as marcas de motos grandes também tentaram produzir no país. A Harley-Davidson montou motos em Manaus em regime CKD (peças enviadas prontas para montagem) a partir de 1999 e encerrou essa produção em 2018, segundo a imprensa especializada. Desde então as Harley vendidas no Brasil chegam importadas, principalmente dos Estados Unidos e da Tailândia.
Do lado das exportações, o volume ainda é pequeno perto da produção. Em 2025 foram 43.117 motos vendidas para fora do país, alta de 39,1% sobre 2024, segundo a Abraciclo, enquanto o mercado interno absorveu 2,19 milhões de motos emplacadas. A conta é simples: a moto brasileira é feita quase toda para o próprio brasileiro.
Linha do tempo
| Ano | Fato |
|---|---|
| 1971 | Honda começa a vender motos importadas no Brasil |
| 1974 | Yamaha inaugura fábrica em Guarulhos e lança a RD 50 |
| 1976 | Fim das importações; começa a produção da CG 125 em Manaus |
| 1985 | Yamaha inaugura a fábrica de Manaus |
| 1990 | Termina a proibição de importar |
| 1998 | Honda lança a Biz, desenvolvida no Brasil |
| 2009 | CG 150 Titan Mix, a primeira moto flex |
| 2016 | Nona geração da CG, com motor de 160 cc |
| 2025 | Produção de 1,98 milhão de motos, maior volume em 15 anos |
Para onde a moto brasileira vai
O uso da moto no trabalho, nas entregas e no mototáxi explica boa parte do crescimento dos últimos anos, o que está detalhado no artigo sobre o papel das motos na economia e na mobilidade urbana. Do outro lado, a moto elétrica começa a ocupar espaço, e o texto sobre motos elétricas no Brasil mostra o que existe hoje.
Quem tem uma moto mais velha vai querer cuidar do que tem, e o caminho mais curto é o texto com dicas para cuidar da moto.
Perguntas frequentes
Quando começou a produção de motos em grande escala no Brasil?
Com a proibição de importar veículos em 1976, a Honda iniciou a produção da CG 125 em Manaus em novembro daquele ano. A fábrica da Yamaha em Manaus veio em 1985.
Qual foi a primeira moto flex do mundo?
A Honda CG 150 Titan Mix, lançada no Brasil em março de 2009. Ela aceita gasolina, etanol ou mistura dos dois.
Quantas motos o Brasil produz por ano?
Em 2025 foram cerca de 1,98 milhão, segundo a Abraciclo, o maior volume em 15 anos. Em 2024 foram 1.748.317. A maior parte sai do Polo Industrial de Manaus.
Por que as motos de dois tempos deixaram de ser vendidas?
O motivo mais citado são as regras de emissão de poluentes, difíceis de cumprir com o motor de dois tempos. O motor de quatro tempos virou padrão nas motos novas.
A Biz foi feita só para o Brasil?
Foi desenvolvida no Brasil, a partir do motor e do câmbio da C100 Dream, e lançada em 1998 com soluções pensadas para o uso nas cidades brasileiras, como o espaço para capacete sob o banco.






