Motos antigas mais importantes: os modelos que marcaram a história

Da Reitwagen de 1885 à Kawasaki Z1 de 1972: as motos antigas que mudaram a técnica e o mercado, com ano, motor e o que cada uma trouxe de novo.

Moto antiga clássica com tanque cromado e banco de couro estacionada em rua de paralelepípedo ao pôr do sol

A primeira moto do mundo andava a 11 km/h e tinha um motor de meio cavalo. A mais rápida dos anos 1940 passava de 200 km/h, e a de série mais vendida da história ultrapassou 100 milhões de unidades. Entre uma e outra existe uma lista curta de modelos que mudaram o jeito de projetar, de vender e de usar uma moto, e é essa lista que este guia reúne.

A seleção não é ranking de beleza nem de preço de leilão. Cada moto aparece porque trouxe uma solução técnica que ficou, abriu um mercado novo ou virou referência para as seguintes. Os números de motor, ano e potência vêm de fabricantes e de acervos históricos, e os valores de potência dessa época variam conforme o método de medição de cada marca.

Como tudo começou: Reitwagen e as primeiras motos de série

A Daimler Reitwagen, de 1885, é considerada a primeira moto de motor a gasolina. Gottlieb Daimler e Wilhelm Maybach montaram um quadro de madeira com duas rodas de madeira e um motor de um cilindro, de 264 cc, que dava cerca de 0,5 cv a 600 rpm e levava o conjunto a uns 11 km/h. O primeiro a andar nela foi o filho de Daimler, Paul, em 18 de novembro de 1885.

A Reitwagen era um experimento, e foi a alemã Hildebrand e Wolfmüller que transformou a ideia em produto. Em 1894, em Munique, a empresa começou a fabricar uma moto com motor de dois cilindros de 1.488 cc, refrigerado a água, e produziu mais de mil unidades em dois anos. Foi a primeira moto de produção em série, e a patente de 1894 já usava o termo alemão para motocicleta, Motorrad. Não deu certo no mercado por ser cara e complicada, mas provou que dava para fabricar em quantidade.

Anos 1910 a 1930: a moto vira máquina de verdade

Em 1912 a americana Henderson já vendia uma moto de quatro cilindros em linha, com 934 cc. Vale guardar esse dado para mais adiante, porque ele desmente uma história que se repete bastante sobre a Honda. A quatro cilindros não nasceu nos anos 1960, só se popularizou ali.

A Indian Scout, projetada por Charles Franklin e lançada em 1919 como modelo 1920, tinha motor V2 de válvulas laterais com 606 cc e uma transmissão primária por engrenagens, sem corrente, que quase não pedia manutenção. Era leve, ágil e ganhou corridas, o que lhe rendeu fama de moto bem projetada, bem acima do que o preço sugeria.

A BMW R32, de 1923, foi a primeira moto da marca e fixou um desenho que a BMW usa até hoje. O engenheiro Max Friz colocou um motor boxer de dois cilindros opostos, 494 cc e 8,5 cv, com cabeçotes expostos dos dois lados para esfriar e transmissão final por eixo, no lugar da corrente. Ia a cerca de 95 km/h, e foram feitas pouco mais de 3 mil unidades até 1926.

A Brough Superior SS100, de 1924, vinha com uma garantia incomum: George Brough prometia que cada unidade passava de 100 mph, uns 160 km/h. A fábrica ficava em Nottingham, na Inglaterra, e a marca se vendia como o “Rolls-Royce das motos”. T. E. Lawrence, o Lawrence da Arábia, tinha várias e morreu em 1935 num acidente com uma Brough Superior, aos 46 anos.

Em 1936 a Harley-Davidson lançou a EL, apelidada de Knucklehead por causa das tampas dos balancins, que lembravam nós de dedos. Foi o primeiro V2 de válvulas no cabeçote que a fábrica produziu em série, com 61 polegadas cúbicas (988 cc) e cerca de 40 cv. Os primeiros lotes tiveram vazamento de óleo e quebra de mola de válvula, mas o projeto durou até 1947 e definiu o visual e o som que se associam à marca.

Pós-guerra: Triumph, Vincent e Vespa

A Triumph Speed Twin apareceu em 1937, desenhada por Edward Turner, com motor de dois cilindros em linha de 498 cc e 27 cv. Era leve e fácil de usar, e depois da guerra levou várias marcas britânicas a copiar a receita do bicilíndrico paralelo de 500 cc.

A Vincent Black Shadow, anunciada em fevereiro de 1948, usava um V2 de 998 cc e chegava a 125 mph (201 km/h). Nenhuma moto de série igualou esse número por muitos anos: o título de mais rápida só mudou de mãos com a Kawasaki Z1, no início dos anos 1970. A Vincent parou de fazer motos em 1955.

A Vespa 98, de 1946, foi outra história. A Piaggio, empresa italiana que fazia peças de avião antes e durante a guerra, pediu ao engenheiro aeronáutico Corradino D’Ascanio um veículo barato para a Itália destruída. Ele desenhou uma scooter com quadro aberto na frente, motor fechado e rodas pequenas, que dava para usar de saia ou de terno. O nome, “vespa” em italiano, veio de uma frase de Enrico Piaggio diante do protótipo, que lhe pareceu uma vespa pela cintura estreita.

Anos 1950 e 1960: Super Cub e Bonneville

A Honda Super Cub C100 começou a ser produzida em agosto de 1958, com motor de 50 cc de quatro tempos, quadro baixo em que se sobe sem levantar a perna e embreagem centrífuga, sem manete. Era simples de pilotar e de consertar. Em outubro de 2017 a Honda anunciou 100 milhões de unidades produzidas da linha Super Cub, vendida em mais de 160 países.

A Triumph Bonneville T120, de 1959, é a moto que muita gente imagina quando pensa em “moto clássica”. Tinha motor de dois cilindros de 649 cc e 46 cv, com dois carburadores, e nasceu como versão esportiva da Tiger 650 a pedido do importador americano. O nome homenageia o lago salgado de Bonneville, nos Estados Unidos, onde a Triumph fez tentativas de recorde de velocidade em 1956.

A era das quatro cilindros japonesas

A Honda CB750 Four, de 1969, não foi a primeira moto de quatro cilindros, como mostrou a Henderson. Foi a primeira a juntar motor de quatro cilindros em linha de 736 cc, freio a disco dianteiro e partida elétrica numa moto de série vendida em grande volume e a preço acessível. Fazia cerca de 68 cv e o termo “superbike” foi criado para ela.

A Kawasaki Z1, de 1972, respondeu com 903 cc, duplo comando no cabeçote, uns 82 cv e velocidade acima de 130 mph (cerca de 210 km/h). Era mais potente que a CB750 e ajudou a fixar o motor de quatro cilindros transversal como padrão das esportivas japonesas por décadas.

Os modelos lado a lado

ModeloAnoPaísO que trouxe
Daimler Reitwagen1885AlemanhaPrimeira moto com motor a gasolina
Hildebrand e Wolfmüller1894AlemanhaPrimeira moto de produção em série
Indian Scout1920Estados UnidosV2 leve, transmissão primária por engrenagens
BMW R321923AlemanhaBoxer com transmissão por eixo
Brough Superior SS1001924Reino UnidoVelocidade de 100 mph garantida
Harley-Davidson EL1936Estados UnidosPrimeiro V2 de válvulas no cabeçote de série da marca
Triumph Speed Twin1937Reino UnidoBicilíndrico paralelo de 500 cc
Vespa 981946ItáliaScooter de quadro aberto e motor fechado
Vincent Black Shadow1948Reino UnidoMais rápida de série por décadas
Honda Super Cub1958JapãoMoto simples, de baixo custo e uso universal
Honda CB750 Four1969JapãoQuatro cilindros, disco e partida elétrica de série
Kawasaki Z11972JapãoDuplo comando e mais de 130 mph

O que faz uma moto antiga ser importante, e não só velha

Idade não basta. Muita moto de 1950 é só uma moto de 1950, sem inovação nem história. As que entram em lista como esta passam em pelo menos um de três testes: trouxeram uma solução técnica que as concorrentes copiaram, venderam tanto que mudaram o jeito de as pessoas andarem, ou ficaram ligadas a um recorde ou a uma pessoa conhecida.

Para o colecionador há um quarto critério, mais frio: quantas unidades sobraram e em que estado. Uma Vincent com números originais costuma valer muito mais do que uma Super Cub, apesar de a Super Cub ser mais importante para a história. Quem quer entender como avaliar uma moto antiga na prática, com documentação, originalidade e estado do motor, pode seguir para o guia de motos antigas brasileiras e clássicas.

Do lado brasileiro da história

As motos desta lista são estrangeiras, mas a história das duas rodas por aqui seguiu caminho próprio, com fábricas nacionais, modelos pensados para estrada de terra e uma cultura de customização que não existe igual em outro país. Dá para acompanhar isso na evolução das motos brasileiras dos anos 1970 até hoje e no artigo sobre as motos customizadas e a cultura que cresceu em volta delas.

Quem já tem uma moto de mais de 30 anos na garagem, ou está pensando em comprar, vai encontrar no texto sobre como cuidar da moto o básico de manutenção que vale também para as clássicas, só que com peças mais difíceis de achar.

Perguntas frequentes

Qual foi a primeira moto do mundo?

A Daimler Reitwagen, de 1885, é considerada a primeira moto com motor a gasolina. Antes dela houve experimentos com motor a vapor, mas a Reitwagen é a referência. A primeira moto fabricada em série foi a Hildebrand e Wolfmüller, de 1894.

A Honda CB750 foi a primeira moto de quatro cilindros?

Não. A Henderson já vendia uma quatro cilindros em linha em 1912. A CB750 Four, de 1969, foi a primeira a reunir quatro cilindros, freio a disco e partida elétrica numa moto de série e de preço acessível.

Qual é a moto mais vendida da história?

A Honda Super Cub. A empresa anunciou em outubro de 2017 a marca de 100 milhões de unidades produzidas da linha, e ela continua em produção.

Uma moto antiga tem sempre valor de coleção?

Não. O valor depende da raridade, do estado, da originalidade e da documentação. Uma moto muito produzida e muito modificada vale pouco, mesmo sendo antiga.

Qual moto antiga é a mais rápida de série dos anos 1940?

A Vincent Black Shadow, de 1948, anunciada com 125 mph (201 km/h). Essa marca só foi superada por uma moto de série com a Kawasaki Z1, em 1972.

Os modelos acima são só os que mais deixaram marca. Quem gostar do assunto vai achar outros nomes pelo caminho, como as Ducati de comando desmodrômico, as Moto Guzzi italianas e as primeiras Yamaha de dois tempos, que também mereceriam uma linha nesta lista.