Carros brasileiros curiosos: histórias e modelos inusitados

Romi-Isetta, Gurgel, Puma, SP2 e o Fusca que voltou por pedido de um presidente: as histórias mais curiosas dos carros feitos no Brasil.

Aquarela de um microcarro laranja arredondado ao lado de um jipe e de um esportivo baixo em uma rua ensolarada

O Brasil tem uma coleção de carros que ninguém mais no mundo fez do mesmo jeito: um microcarro de porta na frente, um jipe de plástico, um esportivo de fibra de vidro feito no interior de São Paulo e um Fusca que voltou à fábrica por pedido de um presidente. Quase todos nasceram de uma mistura de improviso, protecionismo e vontade de provar que dava para projetar carro aqui.

Este guia reúne as histórias mais curiosas da indústria nacional, com datas e números que dá para conferir. Os modelos aparecem em ordem aproximada de época, e quem quiser o quadro geral pode ler antes a história dos carros nacionais, que cobre as décadas inteiras.

Romi-Isetta: o primeiro carro brasileiro tinha a porta na frente

O primeiro automóvel fabricado no Brasil foi o Romi-Isetta, apresentado em 1956 pela Romi, em Santa Bárbara d’Oeste, no interior paulista. O projeto era da italiana Iso, e o carro era um ovo sobre rodas: dois lugares, motor de um cilindro e uma porta que ocupava toda a frente, de modo que o volante e o painel se abriam junto com ela.

A produção durou até 1961 e ficou perto de 3 mil unidades. É pouco, mas o simbolismo pesa mais que o número. O Romi-Isetta foi a prova de que uma fábrica brasileira conseguia montar um carro completo.

Gurgel: o jipe de plástico e o carrinho de 800 cm³

A Gurgel foi fundada em 1969, em São Paulo, por João do Amaral Gurgel, e é a marca brasileira que mais gerou história curiosa. Os modelos Xavante, como o X-12, usavam chassi e carroceria feitos num material que a própria empresa chamava de Plasteel: plástico reforçado com fibra de vidro sobre uma estrutura de aço. Na prática, era um jipe que não enferrujava, e o motor vinha do Fusca, refrigerado a ar.

O projeto mais ousado foi o Itaipu, um carro elétrico. Um protótipo foi mostrado em 1975 e uma versão de série chegou em 1981, bem antes de elétrico virar assunto no país. Em 1984 veio o Carajás, o maior jipe da história da marca.

O caso mais conhecido, porém, é o BR-800, lançado em 1988. Tinha motor de dois cilindros, 800 cm³, e o governo deu ao carro uma alíquota de IPI de apenas 5%, para estimular um popular genuinamente nacional. O BR-800 vendeu, mas a Gurgel entrou em concordata em 1993 e teve a falência declarada em 1994. A história da marca, junto com a de outras que sumiram, está no artigo sobre marcas de carros nacionais que não existem mais.

Puma: esportivo de fibra de vidro feito em série

A Puma nasceu em 1963, com o nome de Sociedade de Automóveis Lumimari, e passou a se chamar Puma Veículos e Motores em 1964. Entre os fundadores estava Rino Malzoni. A fibra de vidro permitia fazer carroceria com formas baixas e curvas sem precisar de uma prensa cara, e foi isso que viabilizou a fábrica.

As linhas GT e GTE, feitas de 1966 a 1980, usavam motor boxer da Volkswagen. Em 1974 chegou o GTB, maior, que mais tarde passou a usar a mecânica do Chevrolet Opala. Entre 1969 e 1980 a Puma exportou cerca de 1.035 unidades, entre carros completos e kits, para mercados nas Américas, Europa, África e Ásia. A marca fechou em 1999 e foi retomada em 2013, em Botucatu.

Volkswagen SP2: parecia esportivo, andava como Fusca

O SP2 foi produzido de 1972 a 1976 e tinha visual de cupê esportivo, desenhado por José Vicente Novita Martins e Márcio Piancastelli. O problema estava debaixo da carroceria: o motor 1.7 boxer, de 75 cv, vinha da linha Volkswagen comum. Dá para ver a diferença nos números, com velocidade máxima em torno de 155 km/h e uma aceleração de 0 a 100 km/h entre 17 e 21 segundos nos testes.

O carro ficou conhecido como Sem Potência, e o preço, alto para uma produção pequena, afastou compradores. Foram 10.206 unidades, e hoje o SP2 é um clássico procurado justamente pelo desenho. É um dos casos que mais aparecem quando se fala de carros antigos brasileiros cobiçados por colecionadores.

Brasinca 4200 GT: um seis cilindros de 155 cv nos anos 1960

O Brasinca 4200 GT foi apresentado no Salão do Automóvel de 1964, com produção a partir de março de 1965. Tinha motor Chevrolet de seis cilindros em linha e 4,3 litros, 155 cv, e chegava perto dos 200 km/h. O desenho é de Rigoberto Soler Gisbert, e a carroceria era de aço.

Só 76 unidades foram fabricadas entre 1965 e 1966, porque o custo era alto e o preço era parecido com o de um Ford Mustang. Em 1966 a linha foi vendida a outra empresa, que melhorou o carro e o rebatizou de Uirapuru.

Fusca de volta por pedido do presidente

O Fusca saiu de linha em 1986, depois de décadas como o carro mais comum do país. Em 1993 voltou à produção na fábrica de Anchieta, por pedido do então presidente Itamar Franco, que via no carro uma forma de gerar emprego. Houve um programa de redução de impostos pensado para o motor refrigerado a ar do Fusca e da Kombi.

O Fusca Itamar durou até 1996. Para a despedida, a Volkswagen fez a Série Ouro, com 1.368 exemplares, com faróis auxiliares, lanternas escurecidas e o nome do carro dourado na tampa do motor. Um carro de projeto alemão da década de 1930 estar sendo fabricado em 1996 por decisão política é uma das cenas mais estranhas da indústria brasileira.

Troller T4 e Kombi: os que ficaram até o fim

A Troller foi criada em 1995, em Horizonte, no Ceará, por Rogério Farias. O T4 chegou em 1999, com motor 2.0 a gasolina da Volkswagen e 114 cv, e depois ganhou motores diesel de 2,8 a 3,2 litros. A Ford comprou a empresa em 2007. Em 11 de janeiro de 2021 a Ford anunciou o fim das fábricas no Brasil, e a produção do Troller terminou naquele ano.

A Kombi teve vida mais longa: fabricada no país de 2 de setembro de 1957 a 18 de dezembro de 2013, quase 56 anos. O que a tirou de linha foi a regra que passou a exigir freios ABS e airbag duplo nos carros a partir de 2014. A Volkswagen preferiu encerrar a produção a adaptar o projeto. Quem quer entender como os motores desses carros evoluíram pode ler sobre a evolução dos motores brasileiros.

O que esses carros têm em comum

Olhando a lista, dá para ver um padrão. Quase todos dependiam de mecânica de outra marca, geralmente a Volkswagen, e de um incentivo ou de uma brecha da regra do momento: a fibra de vidro dispensava ferramental caro, o IPI reduzido sustentava o BR-800, o decreto reviveu o Fusca. Quando as condições mudaram, a maioria dos pequenos fabricantes não sobreviveu.

Se a ideia é ver alguns desses carros de perto, procure encontros de antigomobilismo na sua região e museus de marcas. Pergunte sempre pelo histórico do exemplar, porque peça original de marca extinta é difícil de achar e muda bastante o valor. Para ver o outro lado da história, com os modelos que deram certo, o artigo sobre os melhores carros brasileiros já produzidos é o complemento natural.

Perguntas frequentes

Qual foi o primeiro carro fabricado no Brasil?

O Romi-Isetta, apresentado em 1956 pela Romi, em Santa Bárbara d’Oeste (SP). Era um microcarro de licença italiana, com porta frontal, e foram feitas cerca de 3 mil unidades até 1961.

Por que a Gurgel fechou?

A empresa entrou em concordata em 1993 e teve a falência declarada em 1994. O BR-800 recebeu incentivo de IPI de 5%, mas as vendas não sustentaram a operação. Os detalhes financeiros da quebra variam conforme a fonte.

A Puma ainda existe?

A Puma original encerrou a produção em 1999. A marca foi retomada em 2013, em Botucatu (SP).

Por que a Kombi parou de ser fabricada em 2013?

Porque, a partir de 2014, os carros novos passaram a precisar de freios ABS e airbag duplo. O projeto da Kombi, de 1957, não foi adaptado, e a produção terminou em 18 de dezembro de 2013.

O Fusca Itamar é raro?

Ele foi produzido de 1993 a 1996, então não é um carro raro no sentido de poucas unidades. A Série Ouro, a edição de despedida, teve 1.368 exemplares.