A história dos carros nacionais: da Romi-Isetta ao carro flex e ao elétrico

Como o Brasil passou de importador de carros a um dos maiores mercados do mundo: Romi-Isetta, Fusca, Fiat 147, Gol, carro popular, flex e a chegada dos elétricos.

Três carros compactos antigos estacionados em uma rua arborizada de cidade brasileira ao pôr do sol

Até meados dos anos 1950, quem queria um carro no Brasil comprava um importado ou esperava a fila de um veículo montado com peças de fora. Hoje o país produz mais de 2,6 milhões de veículos por ano e exporta para a América do Sul inteira. Entre uma coisa e outra existem quase 70 anos de decisões de governo, apostas de fábrica e modelos que viraram parte da vida de gerações.

Este guia conta essa história em ordem, década por década, com os carros que mudaram o mercado e o motivo de cada mudança. Quem prefere ir direto a um assunto pode usar os links ao longo do texto, que levam a artigos mais detalhados sobre os carros mais vendidos, as marcas que desapareceram e a evolução dos motores.

Antes de 1956: o carro era importado

Antes do Plano de Metas, o Brasil tinha pouca indústria automotiva própria. Existiam montadoras que recebiam peças e conjuntos do exterior e faziam a montagem final aqui, principalmente caminhões e utilitários. Carro de passeio era, na prática, produto de importação, caro e restrito a uma parcela pequena da população.

Essa dependência pesava na balança comercial. O governo de Juscelino Kubitschek enxergou na indústria automobilística uma forma de criar empregos, atrair fábricas de autopeças e economizar divisas. Em 1956 foi criado o GEIA, o Grupo Executivo da Indústria Automobilística, que definiu metas de nacionalização: quanto de cada veículo precisava ser fabricado dentro do país para a montadora ter incentivos.

1956 a 1960: Romi-Isetta, Kombi e o primeiro Fusca

O primeiro automóvel fabricado no Brasil foi o Romi-Isetta, apresentado em 5 de setembro de 1956 em Santa Bárbara d’Oeste, no interior paulista. Era um microcarro de porta frontal, licenciado da italiana Iso, com cerca de 72% do peso em peças nacionais. A produção durou até 1961 e chegou a 3.300 unidades, um número pequeno que não faz justiça ao símbolo: foi a prova de que dava para fazer carro aqui.

Em seguida vieram as grandes. A Volkswagen inaugurou a fábrica de São Bernardo do Campo em 1959, começando pela Kombi, e passou a montar o Fusca no país. Willys, Vemag e Simca também entraram na disputa naquele período. O Fusca, em especial, encontrou nas estradas ruins brasileiras o ambiente ideal: motor refrigerado a ar, mecânica simples e peça barata em qualquer oficina de cidade pequena.

Anos 1960 e 1970: a família cresce

O fim da década de 1960 trouxe os carros que dominariam as ruas por muito tempo. A Chevrolet lançou o Opala em 1968, um sedã médio com motor de seis cilindros que virou sinônimo de carro de família e, mais tarde, de carro de polícia e de pista. No mesmo ano a Ford apresentou o Corcel, de base francesa, e em 1969 a Dodge lançou o Dart, o V8 nacional mais conhecido.

Os anos 1970 consolidaram o modelo de fábrica brasileira com produto adaptado ao país. A Ford lançou o Maverick em 1973, a Chevrolet apresentou o Chevette no mesmo ano, e a Fiat inaugurou em 9 de julho de 1976 a fábrica de Betim, em Minas Gerais, a primeira grande linha de automóveis fora do cinturão paulista. O primeiro modelo foi o Fiat 147, versão mais robusta do 127 italiano.

A crise do petróleo de 1973 criou o contexto para outra marca registrada brasileira: o álcool combustível. O Proálcool foi lançado em 1975 e, em 1979, o Fiat 147 a álcool foi o primeiro carro de série do país movido ao combustível. O Brasil começava a desenhar uma matriz própria, diferente da de qualquer outro grande mercado.

Anos 1980: o Gol e a década da inflação

Em 1980 a Volkswagen lançou o Gol, um hatch compacto com motor 1.3 refrigerado a ar que mirava o público do Fusca. O modelo evoluiu por décadas e acabou liderando as vendas do país por muitos anos. Ao lado dele surgiram o Fiat Uno, em 1984, e o Ford Escort, lançado no Brasil em 1983. Foi a década em que o carro compacto de motor dianteiro e tração dianteira substituiu o desenho antigo.

Mas os anos 1980 foram difíceis para o consumidor. Inflação alta, planos econômicos e mercado fechado deixaram os carros defasados e caros. Quem comprava, muitas vezes ficava com um projeto que já tinha mais de dez anos. Dessa época vem também a Gurgel, fábrica brasileira que apostou em projetos próprios, como o BR-800, e que a gente conta melhor no artigo sobre marcas nacionais que não existem mais.

Anos 1990: abertura, carro popular e Plano Real

A abertura às importações, no início dos anos 1990, expôs de uma vez a distância entre os carros nacionais e os do resto do mundo. Importados japoneses, coreanos e europeus apareceram nas concessionárias, e as montadoras locais precisaram reagir. A resposta foi o carro popular: com o IPI reduzido para modelos de motor 1.0, a partir de 1993, o carro zero-quilômetro ficou ao alcance de uma classe média que antes só via usado. O Fiat Uno Mille foi um dos principais beneficiados.

O Plano Real, em 1994, derrubou a inflação e transformou o crédito em ferramenta de compra. Na segunda metade da década, novas marcas decidiram abrir fábrica no Brasil: Honda, Toyota, Renault, Peugeot, Mercedes-Benz e outras. O mercado deixou de ser um quarteto de montadoras antigas e virou uma disputa aberta.

Anos 2000: o carro flex muda tudo

Em 2003, a Volkswagen lançou o Gol Total Flex, o primeiro carro brasileiro de série capaz de rodar com gasolina, etanol ou qualquer mistura dos dois. A tecnologia pegou em poucos anos: o motorista passou a escolher o combustível no posto, de acordo com o preço do dia. Foi uma solução bem brasileira, que aproveitou a estrutura de etanol criada nos anos 1970 e que as outras montadoras copiaram quase de imediato.

Os modelos compactos continuaram dominando as vendas. A Chevrolet lançou o Celta em 2000, a linha Palio da Fiat se firmou e, em 2012, o Onix chegou ao mercado e acabou assumindo a liderança de vendas do país. É um dos exemplos mais claros de como um bom projeto nacional pode ficar anos no topo.

2020 em diante: SUV, picape e eletrificação

O gosto do brasileiro mudou na última década. O hatch compacto perdeu espaço para SUV e picape. Em 2025, o ranking da Fenabrave foi liderado pela Fiat Strada, com mais de 140 mil emplacamentos, seguida por Volkswagen Polo e Fiat Argo. A Strada lidera o país desde 2021, quando passou o Onix. A Volkswagen encerrou a produção do Gol no fim de 2022, depois de mais de quatro décadas de linha.

Segundo a Anfavea, as montadoras produziram 2,65 milhões de veículos no Brasil em 2025, 3,5% a mais que em 2024, e os emplacamentos somaram 2,89 milhões de unidades. As exportações chegaram a 528 mil veículos, com Argentina, Chile e Colômbia entre os principais destinos.

A eletrificação virou o assunto da vez. A BYD inaugurou em 9 de outubro de 2025 sua fábrica em Camaçari, na Bahia, que monta o Dolphin Mini, o King e o Song Pro, e já tem capacidade para 150 mil carros por ano. Outras marcas chinesas, como a GWM, também escolheram o país para produzir. Para entender melhor o que vem pela frente, vale ler o artigo sobre tecnologia nos carros brasileiros.

O que ficou de cada fase

  • 1956: Romi-Isetta, o primeiro automóvel fabricado no país
  • 1959: Volkswagen em São Bernardo do Campo, com Kombi e Fusca
  • 1968 e 1969: Opala, Corcel e Dart
  • 1976: fábrica da Fiat em Betim e lançamento do Fiat 147
  • 1979: primeiro carro de série a álcool, o Fiat 147
  • 1980: lançamento do Gol
  • 1993: IPI reduzido para o carro popular 1.0
  • 2003: Gol Total Flex, o primeiro flex de série
  • 2025: fábrica da BYD em Camaçari, na Bahia

Perguntas frequentes

Qual foi o primeiro carro fabricado no Brasil?

O Romi-Isetta, apresentado em setembro de 1956 pela Romi, em Santa Bárbara d’Oeste (SP). Foram 3.300 unidades até 1961. Em termos de volume, o primeiro grande sucesso nacional foi o Fusca, que a Volkswagen começou a produzir aqui no fim dos anos 1950.

Quando surgiu o carro flex no Brasil?

Em 2003, com o Gol Total Flex da Volkswagen. Antes disso já havia carros movidos só a álcool, vendidos desde 1979, mas o flex permitiu usar gasolina ou etanol no mesmo tanque.

O Fusca ainda é fabricado?

Não. A produção brasileira terminou em 1986, voltou por um período curto entre 1993 e 1996 e foi encerrada de vez. O carro continua muito presente entre colecionadores, como mostra o artigo sobre carros antigos brasileiros mais cobiçados.

Qual é o carro mais vendido do Brasil hoje?

Segundo a Fenabrave, a Fiat Strada foi o veículo novo mais vendido do país em 2025. O ranking muda todo ano e o detalhamento está no artigo sobre os carros mais vendidos no Brasil.

Se o assunto é história de uma marca ou de um modelo específico, o caminho é seguir pelos artigos relacionados do site. A indústria automotiva brasileira ainda tem capítulos em aberto, e os próximos dependem de como o híbrido, o elétrico e o etanol vão dividir o espaço nos próximos anos.