O Brasil já teve mais marcas de carro do que tem hoje, e várias eram de fato brasileiras. A Romi-Isetta, de 1956, foi o primeiro carro feito em série no país. A DKW-Vemag, a Willys, a Simca, a FNM, a Puma, a Gurgel e a Troller também rodaram nas ruas, e todas saíram de linha por motivos diferentes.
Este guia percorre as principais, em ordem cronológica, com o que cada uma fabricou, quando acabou e o que sobrou. Algumas foram absorvidas por multinacionais nos anos 1960, outras faliram em crises econômicas, e uma, a Troller, foi encerrada por uma decisão da Ford em 2021.
Romi-Isetta (1956 a 1961)
A Romi-Isetta foi o primeiro automóvel fabricado em série no Brasil. Começou a ser produzida em 5 de setembro de 1956, em Santa Bárbara d’Oeste, no interior de São Paulo, com licença da italiana Iso. Era um carro minúsculo, com 2,27 metros de comprimento e uma única porta, que abria na frente.
A produção durou até 1961 e chegou a cerca de 3 mil unidades, com 72% de nacionalização em peso. A Romi continuou existindo como fabricante de máquinas, mas saiu do ramo de automóveis.
DKW-Vemag (1956 a 1967)
A Vemag fabricou em São Paulo, a partir de 1956, os carros alemães da DKW, com motor de dois tempos. O modelo mais lembrado é a perua Vemaguet, mas a marca também teve sedãs, como o Belcar, e o Fissore, de 1964. Era um carro com mais de 50% de peças nacionais, o que na época era muito.
Em 1967, a Volkswagen assumiu a fábrica da Vemag no Ipiranga e encerrou a linha de carros. A Puma, que usava a mecânica DKW, teve que mudar de motor por causa disso, como se vê mais abaixo.
Willys-Overland do Brasil (até 1971)
A Willys começou a produzir no Brasil nos anos 1950 e ficou conhecida pelo Jeep, pela Rural, pelo Aero Willys e pelo Interlagos, o esportivo derivado do Alpine francês. Foi também uma das pioneiras na produção de motores no país, em Taubaté, no interior de São Paulo.
Em 1967, a Ford assumiu a Willys no Brasil. A marca foi extinta em 1971, e modelos como o Jeep e a Rural passaram a ser vendidos com o nome Ford. Para ver como essa fase se encaixa na linha do tempo da indústria, vale conferir a história dos carros nacionais.
Simca do Brasil (1958 a 1969)
A Simca, de origem francesa, produziu no Brasil o Chambord, vendido em versões como Tufão, Présidence, Alvorada e Rallye, e a perua Jangada. A fábrica ficou em São Bernardo do Campo, em São Paulo.
A Chrysler assumiu a operação nos anos 1960 e, em 1969, passou a fabricar o Dodge Dart na mesma fábrica. A marca Simca saiu de cena, e os carros que sobraram ganharam novos nomes, como Esplanada e Regente.
FNM, a primeira montadora brasileira
A Fábrica Nacional de Motores nasceu em 1941 e é considerada oficialmente a primeira montadora brasileira. Fez caminhões a partir de 1949 e, em 1960, lançou o sedã JK, versão do Alfa Romeo que ficou conhecida como FNM 2000.
A empresa foi absorvida pela Alfa Romeo e, mais tarde, passou à Fiat. A marca FNM deixou de existir nos anos 1970. O JK, hoje raro, aparece no guia dos carros antigos mais cobiçados por colecionadores.
Chrysler do Brasil e o fim do Dodge (1979 a 1981)
A Chrysler do Brasil foi comprada pela Volkswagen em 1979. A promessa inicial de manter o Dodge não durou, e em 1981 saíram de linha os últimos Dart e Polara. Foram 93.008 unidades do Dart e derivados, e a última geração do modelo no mundo foi justamente a brasileira, já que nos Estados Unidos e no México ela havia terminado em 1976.
A fábrica de São Bernardo do Campo passou a ser usada pela Volkswagen para iniciar a produção de caminhões.
Puma: o esportivo que nasceu de um DKW
A história da Puma começa em 1964, com Rino Malzoni, fazendeiro e entusiasta que construiu um esportivo sobre o chassi e o motor do DKW-Vemag. A empresa que fabricava o carro mudou de nome para Puma pouco depois, e o Puma GT, desenhado por Anísio Campos, foi uma evolução do Malzoni.
Quando a Volkswagen absorveu a Vemag, em 1967, a Puma teve que interromper o GT com 125 unidades feitas e passou para a mecânica Volkswagen a ar. Mais tarde vieram versões com o motor de seis cilindros do Chevrolet Opala, como o GTB. A marca foi vendida em 1986, quando a empresa estava em concordata, e passou por mais donos sem recuperar o brilho do passado.
Gurgel (1969 a 1994)
A Gurgel foi fundada em 1969 por João do Amaral Gurgel, com a ideia de fazer um carro 100% projetado e produzido no Brasil. Em 1973, comprou terreno em Rio Claro, no interior paulista, para a fábrica. O jipe Xavante, também chamado de X-10, começou a ser produzido naquele ano, com a carroceria de plástico reforçado com fibra, o sistema que a empresa chamava de Plasteel, resistente à corrosão.
Em 1974, apresentou o Itaipu, um minicarro elétrico, o primeiro do tipo feito na América Latina. A maior aposta veio em 1988, com o BR-800: 634 kg, estrutura tubular de aço, carroceria de fibra e motor boxer de dois cilindros, com 30 cv. Em 1992 ele deu lugar ao Supermini, com a mesma mecânica.
A empresa fechou no fim de 1994, depois de ter um pedido de financiamento de US$ 20 milhões negado pelo governo federal. João Gurgel morreu em 30 de janeiro de 2009. O guia dos melhores carros brasileiros já produzidos traz outros modelos da época.
Engesa: de blindados a um jipe civil
A Engesa nasceu em 1958 e virou empresa em 1963, fundada por engenheiros formados na USP. Ficou famosa pelos blindados Cascavel (EE-9) e Urutu (EE-11), de seis rodas, que vendeu para 18 países. No total foram 6.818 veículos produzidos em série em oito modelos.
Nos anos 1980, tentou entrar no mercado civil com o jipe Engesa 4, apresentado ao público no Salão do Automóvel de 1984. A crise da indústria de defesa no fim da década levou a empresa à concordata e, em 1993, à falência.
Troller (1995 a 2021)
A Troller foi criada em 1995 por empresários brasileiros e fez o jipe T4, feito em Horizonte, no Ceará. A Ford comprou a marca em 2007. Em 8 de agosto de 2021, a Ford anunciou o fim da produção do T4, junto com a decisão de encerrar a fabricação de carros no Brasil. A fábrica tinha cerca de 470 funcionários, e a Ford se recusou a vender a marca Troller, o que causou críticas do governo do Ceará.
Linha do tempo rápida
| Marca | Período | Como acabou |
|---|---|---|
| Romi-Isetta | 1956 a 1961 | Vendas fracas; a Romi saiu do ramo |
| DKW-Vemag | 1956 a 1967 | Absorvida pela Volkswagen |
| Willys | anos 1950 a 1971 | Comprada pela Ford, marca extinta |
| Simca | 1958 a 1969 | Absorvida pela Chrysler |
| FNM | 1941 a anos 1970 | Absorvida pela Alfa Romeo e depois pela Fiat |
| Puma | 1964 a 1986 | Concordata e venda da marca |
| Gurgel | 1969 a 1994 | Falência após crédito negado |
| Engesa | 1963 a 1993 | Crise da indústria de defesa e falência |
| Troller | 1995 a 2021 | Encerrada pela Ford |
Perguntas frequentes
Qual foi o primeiro carro fabricado no Brasil?
O Romi-Isetta, produzido a partir de setembro de 1956 em Santa Bárbara d’Oeste, em São Paulo. A FNM, por sua vez, é considerada oficialmente a primeira montadora do país.
Por que a Gurgel fechou?
Por problemas financeiros e pela concorrência das multinacionais. Em 1994, a empresa pediu US$ 20 milhões ao governo federal e teve o pedido negado, e encerrou as atividades no fim daquele ano.
Ainda existe Puma?
A Puma original foi vendida em 1986 e passou por outros donos depois, sem voltar a ter o peso do auge. Os carros antigos continuam sendo restaurados e colecionados.
O que aconteceu com a Troller?
A Ford comprou a marca em 2007 e, em agosto de 2021, anunciou o fim da produção do jipe T4 em Horizonte, no Ceará, ao deixar de fabricar carros no Brasil.
O que essas marcas têm em comum é terem tentado crescer num mercado dominado por multinacionais, com mais criatividade que capital. Para conhecer as que seguem em atividade, veja a lista das principais montadoras e seus modelos.






